Gerson é desses caras difíceis de serem vistos por aí. Impossível não enxergá-lo, porque ele é muito alto. Mas enxergar é diferente de ver e, olhando de perto, o que se vê não é um religioso ferrenho, preso a idéias nas quais ninguém (nem ele mesmo) acredita. Gerson é um cara comum. Cheio de sonhos. Graças a Deus, muitos ele faz virar verdade, o que acaba por colocar nas mãos da gente coisas maravilhosas, como os CDs que ele grava...
Se não bastasse uma voz linda e um jeito para a música para lá de talentoso e competente, Gerson é escritor dos bons. Pega na pena e o que sai é lindo. Diz o que queremos dizer de um jeito que é só dele, mas que é de todos nós.
O mais importante pra mim, no entanto, é que ele vive o que fala. Tem uma família linda, é amigo carinhoso e fiel, cuida da gente como pastor e tem conversa leve, saudável, que enriquece. E ainda por cima é padrinho de uma das minhas filhas.
Quem lê o texto abaixo (publicado no portal Cristianismo Criativo: vida inteligente entre os artistas cristãos!) e esteve no Sarau da Comuna, promovido por ele na igreja na semana passada e já em sua segunda edição, sabe disso. O sarau é um espaço de liberdade, de expressão artística sem amarras, de comunhão verdadeira. O que a gente vive lá é a vida de cada um, a vida de todo dia, com dificuldades, alegrias. Só que compartilhada, vida em comunhão.
Pois bem, ontem mesmo estava traduzindo um texto do John Maxwell onde ele diz exatamente que a gente não pode sair por aí falando de coisas e defendendo idéias que não vive. É isso. Gerson defende a arte e a cultura no ambiente cristão. E, mais do que defendê-las com palavras pontuais, é capaz de vivê-las em sua mais bela e intrínseca essência e valor, por onde quer que passe. Coerência. Na vida e no coração. E, como ele mesmo diz, é de coração.
Não tem como não parafrasear... Não, não sou eu que entendo de palavras. É a palavra de gente como o Gerson que me entende e me resolve, me explica...
--- O texto do Gerson ---
ERA PARA EU ESCREVER SOBRE GUIMARÃES ROSA
Por Gérson Borges
21 de julho de 2008
A pauta estava combinada, tudo certo, tintin por tintin, deadline e tudo: era para eu escrever sobre Guimarães Rosa, sobre o centenário do escritor mineiro, esse gênio das palavras, autor de Sagarana (1946), passando por Corpo de Baile (1954), Primeiras Estórias (1962) e Tutaméia - Terceiras Estórias (1967) e do clássico Grande Sertão: Veredas (1956), o mais importante de seus livros e único romance.

Era para eu explorar um "cadinho" da grandeza de Grande Sertão, como a Bíblia, um livro comentado demais, lido de menos; como a Bíblia, cercado de divergentes exegetas, mas tão pouco comido por leitores famintos (Ezequiel 3.3); como a Bíblia, um livro-espelho: a gente se vê no que lê o tempo todo; como a Bíblia, um texto que não se explica mas nos explica. Sobre isso, aliás, a frase de Paulo Mendes Campos, mineiro como Rosa, poeta maravilhoso como Rosa, é definitiva: “não sou eu que entendo a poesia. É a poesia que me entende e me resolve, me explica”. Explicar Grande Sertão só não é mais difícil do que explicar as Escrituras Sagradas. Tento, quero, me aplico a tal tarefa, mas não dou conta. Eu só digo como o Salmista: “Como eu amo a tua Lei!" e fico (e convido minha congregação a entrar) na minha. Era para eu destacar a maravilha de descobrir a influência dos Pais da Igreja, dos Místicos Cristãos sobre o escritor de Cordisburgo – desde Agostinho até A Imitação de Cristo e Meister Ekhart, muitos deles estão fortemente presentes na obra de Guimarães Rosa, descoberta que devo ao maravilhoso livro de Heloísa Araújo, diplomata erudita, doutora em literatura por Cambridge (Editora Mandarim, 1996), com "O roteiro de Deus". Nesse texto, um estudo delicioso e cheio do zelo de um verdadeiro pesquisador, a autora compara trechos de Grande Sertão com Tomás de Aquino e outros doutores teológicos e, deliciosamente, revela que a biblioteca de Rosa estava cheio dessas obras cristãs, clássicos da espiritualidade e da teologia. Era para eu conversar sobre isso, mas quero falar sobre mim, sobre o meu grande sertão interior.
Ando triste com o desprezo que a igreja evangélica (ainda) tem da Cultura.
Aliás, duas posturas são as mais comuns: ou demonizamos a Cultura ou a idolatramos. Exemplo número um: samba é música do mundo, frevo é dança do diabo, Festa Junina é coisa pagã. Vixe! Exemplo número dois: música boa é música de hinário (herdado de missionários americanos, inglesas ou suecos). Dança? Que dança Festa cristã é o Natal! Ando triste com esse mentalidade de gueto, que exclui o gozo e a apreciação da Graça Comum (conceito teológico do protestantismo, primariamente em círculos calvinistas ou reformados, que se refere à graça de Deus, que é comum a toda a humanidade.
Ela é comum porque seus benefícios se estendem a todos os seres humanos sem distinção). É por isso que choro ouvindo Chico Buarque, assistindo ao Cine Paradiso, lendo Graciliano Ramos. É por isso que afirmo haver mais profecia em certos poetas do que em muitos profetas... Ando triste porque o trabalho pastoral, que era pra ser "um dos últimos lugares onde se pode exercitar a criatividade" (Eugene Peterson) tem se transformado em mera gestão de um negócios religioso: dar entretenimento banal a gente superficial. Outro dia, perdi o controle e não consegui segurar a onda e as pontas. Era uma reunião de jovens e eu falava/cantava sobre ...espiritualidade! A conversa e a desatenção era tão irritante ou eu estou mesmo estressado ou as duas coisas juntos – o mais provável – que parei no meio, desisti, encerrei a apresentação/ministração. Tenho vinte anos de labuta e nunca havia feito tal coisa. Fiquei mal. Perdi o sono. Implorei ao Fabrício, meu amigo pastor, meu anfitrião, que perdoasse o meu gesto rude e intolerante. Fiz uma crise: o que as pessoas fazem com o que ofereço a elas com minha poesia e profecia? Qual o sentido de fazer o que faço como poeta e pastor? Continuo com a conversa de gueto ou, como Paulo em Atenas, abro a boca e digo: "É como disseram vossos poetas!" (Atos 17)?
Era para eu escrever sobre Guimarães Rosa, que disse: "O sertão é dentro da gente". É, caro Rosa, ser pastor é SER–TÃO... ser tão solitário, ser tão tentado, ser tão relações–públicas, ser tão incompreendido, ser tão idolatrado, ser tão (des)respeitado, ser tão assediado, ser tão (des)mascarado, ser tão humano, ser tão limitado, ser tão apaixonado pelas pessoas, ser tão consumido pelas pessoas, ser tão parecido com as pessoas, ser tão ...gente! Era para eu escrever sobre você Rosa – sua busca espiritual. Acabei escrevendo sobre mim e minha crise pessoal. Sinto muito.
Gerson Borges, 39, carioca, há 11 anos radicado em São Bernardo do Campo, ABCD paulista, casado com Rosana Márcia e pai de Bernardo e Pablo é pastoetador – pastor, poeta e educador - e está preparando um novo CD "Cantoria de Viola", sobre o mundo do cordel, da viola nordestina e caipira, sobre a arte de cantar.





